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Em torno das grafias CAMPUS , CAMPUS E CÂMPUS .

Profa. Dra. Maria Helena de Moura Neves *

Informações iniciais:

1) O Vocabulário ortográfico da língua portuguesa , da Academia Brasileira de Letras (4 ed. 2004), que é o registro oficial das palavras do português do Brasil, não registra campus nem campus nem câmpus.

2) O Dicionário Aurélio – Século XXI coloca a entrada “campus” sem acento, sem itálico, e com a indicação (uma flecha) de que se trata de estrangeirismo. Quanto à etimologia, indica: [ Lat ., pelo ingl . amer .]. Registra como plural: “ campi ( lat .)”. Não há exemplos.

3) O Dicionário Houaiss coloca a entrada “ campus ” (em itálico), sem acento. Quanto à etimologia, indica [ lat .], e, mais adiante, especifica: “ campus nom. sing . de campus, i ”. Para o plural, registra: “ campi ( lat .)”. Não há exemplos.

4) O jornal O Estado de S. Paulo usa sempre câmpus (com acento, como recomenda seu Manual de Redação), enquanto o jornal Folha de S. Paulo usa, em geral, campus (sem acento): no site da Folha de S. Paulo , entre 2000 e 2007 encontrei, em 2404 ocorrências, apenas 3 casos de câmpus , com acento) .

Discussão da questão

A longa discussão de que tem sido objeto a adoção da grafia da palavra câmpus / campus / campus tem estado baseada na origem latina do termo e na questão do aportuguesamento ou nãoaportuguesamento de sua forma no registro escrito.

O acompanhamento da discussão (pela imprensa escrita ou em meio eletrônico) mostra uma série de equívocos de interpretação:

1º equívoco - Considerar que só “houve” aportuguesamento de uma palavra (isto é, que se pode escrever uma palavra em forma conformada à grafia portuguesa) quando uma determinada grafia já está registrada em tal ou tal obra de referência.

Se o fato de uma grafia estrangeira com adaptação ao vernáculo estar abrigada em dicionário ou vocabulário pode, sim, ser invocada como forte sinal de aportuguesamento da palavra, por outro lado o fato de ela não estar abrigada nessas obras não pode ser invocado como sinal de impossibilidade de uso da forma aportuguesada, porque é a partir do uso que os registros lexicográficos são feitos (e, em geral, a longos intervalos).

Dificilmente uma forma aportuguesada terá entrado em um dicionário sem nunca ter sido tentada pelos usuários a adaptação à grafia portuguesa. O registro oficial da conformação de uma palavra ao vernáculo já é o atestado de que ela é corrente na língua.

2º equívoco - Considerar essa palavra (especialmente tendo em vista a acepção que ela tem em português) como, simplesmente, de origem latina.

São duas as questões:

a) Essa palavra não está na nossa língua por via daquela derivação histórica (e popular) do latim para o português pela qual vieram, em geral, as nossas palavras (exemplos: lobo, mesa , mar ), como língua neolatina que o português é. A palavra foi incorporada muito mais tardiamente, quando se tornou necessário denominar a área que compreende as construções e os diversos terrenos que constituem um espaço universitário (o que, obviamente, não havia, ainda, no Império Romano).

A primeira evidência disso é que a palavra mantém a forma em - us (vinda do nominativo latino), enquanto as palavras latinas que entraram por ocasião da formação da língua portuguesa vieram, na sua derivação natural, pelo acusativo: no caso, o acusativo era campum (plural campos ), que daria campo , assim como temos lobo , fumo , longo , todo.

b) Outro dado histórico importante, no caso dessa palavra, é que, embora sua forma seja latina, a fonte da importação foi o inglês, e não o latim, do mesmo modo que ocorreu, por exemplo, com a palavra bônus . O inglês, que não é uma língua latina, freqüentemente vai buscar palavras no latim para denominação de coisa novas , e as vai buscar no nominativo, o caso em que a palavra aparece no dicionário, já que se trata de um empréstimo, e não de uma derivação histórica, que tem procedimentos naturalmente instituídos no próprio processo (por exemplo, o caso lexicogênico , para o italiano, foi o nominativo, e, para nós, foi o acusativo).

3º equívoco - Considerar natural a existência de um plural campi , em português.

O plural latino do nominativo campus é, de fato, campi , e é esse o plural que uma pessoa adotará se continuar considerando campus uma palavra “estrangeira”, uma palavra de forma latina, e não da língua portuguesa (o que, pelas nossas normas, costuma vir indicado com uma marca gráfica especial, em geral o itálico).

Nesse particular, não vou comparar campus com lupus (que também tem o nominativo plural em –i , porque é uma palavra latina do mesmo tema), já que lupus veio pelo acusativo ( lupum > lobo ; plural formado em português: lobos ), enquanto campus , como já observei, é uma palavra decalcada pelo nominativo. Mas vou comparar essa palavra com outras palavras latinas (de outro tema) em - us que, no português, também deram palavras terminadas em - us (exemplos: lat . onus , munus ; port . ônus , múnus ), e não porque elas tenham vindo do nominativo, mas porque eram do gênero neutro, e todas as palavras desse gênero tinham o acusativo igual ao nominativo (no caso, também em -us ).

O plural latino dessas palavras (nominativo e acusativo) era onera e munera , respectivamente, mas ninguém pode sequer imaginar que um falante do português, mesmo tratando-se de um usuário de um campo de especialidade, precisaria saber disso para pluralizar esses substantivos. Do mesmo modo ninguém defenderia o plural bôni , para bônus . Pelas regras ortográficas do Brasil, as palavras com o singular terminado em sílaba átona de final s não se alteram no plural: ( o/a; os/as) ceres , lápis , tênis , ânus , bônus , íctus , ônus , múnus , tônus (esta última, de origem grega).

Quanto ao plural, ainda resta uma observação. O inglês criou, segundo a índole da língua, ao lado do plural latino campi , o plural campuses assim como criou bonuses e viruses , para as palavras latinas bonus e vírus . Ressalte-se que, em inglês, é comum que os empréstimos latinos já sejam acolhidos com suas formas singular e plural, mas isso não impede a formação de plurais vernáculos (são exemplos os neutros latinos: continuum , plural continua , coexistindo com continuums ; datum , plural data , coexistindo com datums ; memorandum , plural memoranda , coexistindo com memorandums ). A pergunta final, quanto ao plural de campus , é se alguém ousaria propor que nossa importação da palavra fosse completa, inclusive do plural campuses , ao lado de campi .

Indicações conclusivas:

1) Câmpus é um termo latino trazido à língua portuguesa para aplicação a um campo de especialidade, mas, pela própria acepção, tornou-se termo corrente, o que faz esperar sua incorporação à norma gráfica da língua.

2) Como forma de origem latina, essa palavra tem naturalmente a feição de palavra portuguesa, e facilmente se coloca entre outras semelhantes no rol de substantivos da língua.

3) Segundo as regras oficiais de acentuação, o acento circunflexo é o sinal necessário para indicar que se trata de palavra paroxítona, já que as palavras portuguesas terminadas em -u (s) não-acentuadas são oxítonas. A partir daí, o plural é câmpus , igual ao singular (como bônus , íctus , vírus ).

4) Por outro lado, o uso de palavras estrangeiras é corrente no português, como em qualquer outra língua. Desse modo, a palavra latina campus (sem circunflexo) está em textos do português, a ela correspondendo o plural campi , mas ambas as formas têm de sempre ser entendidas como da língua latina, e, como tal, registradas com tipo especial de fonte, por exemplo o itálico. Essa decisão implica entendê-las não apenas como estrangeiras mas ainda como de uso em língua de especialidade, de modo similar ao que ocorre com tantos termos e expressões da linguagem do Direito, por exemplo data venia , ex consensu , ex contractu , habeas data , habeas corpus .

Esse entendimento, porém, não é tão pacífico, e por duas razões:

a) o Direito é um campo que, herdeiro do Direito Romano, adota, literalmente, termos latinos para nomear conceitos jurídicos: por exemplo, enquanto uma obra leiga eventualmente fala de conceitos muito divulgados tentando aportuguesar a forma da expressão (como se tem feito na grafia com hífen habeas-corpus ), as obras de especialidade necessariamente manterão a forma latina, como um verdadeiro nome próprio;

b) é diferente o que ocorre com o termo câmpus , que, embora tenha aplicação em um campo de sentido particular (não nomeia todo “espaço aberto”, só o das universidades / faculdades), tem, hoje, uso bastante corrente (feito o cálculo para o jornal Folha de S. Paulo , essa palavra foi usada quase uma vez por dia, nos últimos oito anos), o que não é o caso de verdadeiros termos de especialidade.

* Maria Helena de Moura Neves é docente aposentada do Departamento de Lingüística da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, câmpus de Araraquara, autora de Gramática de usos do Português , publicado pela Editora da UNESP. É docente da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pesquisadora do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

 
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